Psicologia Sagrado Feminino

Personalidade feminina: qual deusa grega é mais forte em você? – Parte 1

Escrito por Maya Lakshmi

Este texto é um resumo baseado no livro A Deusa Interior – Um guia sobre os eternos mitos femininos que moldam nossas vidas, escrito por Jennifer e Roger Woolger. Como psicóloga e facilitadora de círculos de mulheres, considero o estudo dos arquétipos das deusas gregas uma rica fonte de autoconhecimento. É impressionante como esses mitos podem ter algo importante a nos dizer, mesmo nos dias atuais. Espero que essa leitura seja útil em seu caminho.

“Com ‘deusa’ queremos exprimir a descrição psicológica de um tipo complexo de personalidade feminina que reconhecemos intuitivamente em nós, nas mulheres a nossa volta, e também nas imagens e ícones que estão em toda parte em nossa cultura.” (p. 14)

“Há uma dinâmica fundamental por trás das atitudes de uma mulher como essa que a torna singular enquanto tipo. Parte é adquirida socialmente e parte parece inata. Quando a mesma dinâmica psicológica é constatada num grupo de pessoas, temos o que Jung denominou arquétipo.” (p. 14)

“Uma deusa é, portanto, a forma que um arquétipo feminino pode assumir no contexto de uma narrativa ou epopéia mitológica.” (p. 15)

Conhecer-se a si mesma mais plenamente como mulher é conhecer por quais deusas se é primordialmente governada. E é estar ciente de como cada uma delas influencia as diversas fases e os diversos pontos de mutação de nossa vida.” (p. 16)

AVISO IMPORTANTE:

O livro A Deusa Interior é profundo e complexo. Foi escrito por dois psicólogos e analistas junguianos. A leitura completa é recomendada.

Deusa Atena

Palavras que evocam Atena: mente, racionalidade, ideais, independência, cidade, cultura, profissão, competição…

A mulher que tem Atena como sua deusa mais presente tenderá a ser muito dedicada a sua carreira e ter uma afinidade com áreas como a política e a justiça social, pois Atena é uma deusa que também representa os ideais democráticos.

Vista em todo o Olimpo como uma sábia conselheira, ela é filha de Zeus e não nasceu de nenhuma mãe. Na verdade, o mito de seu nascimento é bastante estranho aos nossos olhos modernos, pois conta-se que ela foi retirada da cabeça de seu pai, já vestindo sua armadura. Cada mito, quando analisado em seu contexto histórico-cultural, retrata uma tentativa coletiva de compreensão dos eventos daquela época. Para me deter na explanação das representações pessoais dos arquétipos das deusas, podemos entender que o fato de Atena ser filha apenas de Zeus e ter nascido de sua cabeça, na verdade, é a pura representação do quanto ela era sábia, inteligente e próxima do mundo masculino, patriarcal.

Por isso, uma mulher-Atena se sentirá confortável em ambientes que ainda são mais dominados por homens, como sendo presidente de uma grande empresa, médica, engenheira, juíza… Desde criança pode-se perceber seus traços competitivos e sua afinidade em brincar com meninos, mais do que com meninas. Ela se divertirá mais lendo um livro, traçando uma longa argumentação com seus amigos sobre ser a melhor líder para uma brincadeira, por exemplo, do que servindo um chá imaginário para ursinhos de pelúcia.

Uma das grandes feridas da mulher-Atena é a separação entre sua mente e seu corpo, sua razão e seu coração e, por fim, entre sua vida pessoal e profissional. Como temos todas as deusas dentro de nós e algumas ficam mais evidentes em determinadas fases de nossa vida, uma legítima Atena pode se encontrar num dilema profundo ao fazer trinta anos e se ver diante da escolha da maternidade.

Muitas mulheres-Atena não terão o desejo de constituir uma família e ter filhos, mas como uma característica não é excludente da outra, quando elas se combinam podem causar crises de identidade e escolhas difíceis. Tudo isso porque o mundo em que vivemos ainda é bastante machista e construído em uma lógica pouco sensível para as questões da maternidade (e paternidade!) e uma carreira de extremo sucesso parece exigir que essa mulher direcione toda a sua fertilidade e criatividade para projetos absolutamente profissionais, deixando os filhos fora da equação.

Terapias corporais, vivências que tirem a mulher-Atena do labirinto mental, podem ser importantes para ela ativar as energias das outras deusas e encontrar um equilíbrio para ouvir o seu desejo interior – tanto para a questão da maternidade quanto para a escolha de estabelecer uma parceria afetiva estável e duradoura.

“Se Atena vier a ter um companheiro, terá de ser um homem que reflita sua própria independência andrógina, um homem com um componente feminino vigorosamente integrado, capaz de cuidar emocionalmente de si e que prefira desenvolver projetos junto com ela ou relacionar-se com ela num plano intelectual. Precisará, sobretudo, ter a autoconfiança necessária para não ameaçar a autonomia e as ambições dela” (p. 43)

Atena nascendo da cabeça de Zeus

Deusa Ártemis

Palavras que evocam Ártemis: aventura, natureza, solidão, independência, esportes, animais, amazonas…

Ártemis é uma deusa caçadora e protetora dos animais e da vida selvagem. No mundo moderno, das grandes metrópoles, ela pode se sentir deslocada e solitária, pois este jamais seria seu ambiente de escolha.

Vamos encontrar uma mulher-Ártemis vestida com roupas leves e práticas, seu corpo tenderá a ser atlético e essa poderá ser sua maior fonte de vaidade. Em um apartamento com animais e plantas, se morar em uma grande cidade, ela poderá se refugiar em profissões como bióloga, guia de ecoturismo, engenheira ambiental, agrônoma…

Mas, para honrar seu chamado interior de estar perto da natureza, Ártemis se sentirá muito mais confortável em lugares rurais ou tendo um estilo de vida nômade, como uma mochileira, ou ainda vivendo em uma comunidade sustentável.

“A chaga de Ártemis envolve a solidão de ser relegada, psicológica e às vezes literalmente, às margens da sociedade. Foi-lhe negada qualquer verdadeira identidade enquanto mulher. Seu amor ardente pela liberdade e sua atitude mental independente tendem a tornar particularmente difícil para ela aceitar os estilos de vida de mãe, esposa ou profissional, que pertencem a Deméter, a Hera e a Atena. Na realidade, ela muitas vezes sentirá desprezo por valores e formas da sociedade convencional.” (p. 90)

Também conhecida como a senhora dos animais, Ártemis poderá expressar seu instinto selvagem através da sua sexualidade quando encontrar um(a) parceiro(a) que desperte sua paixão mais ardente. Do contrário, ela prefere estar sozinha.

Por ser autoconfiante e aventureira, a mulher-Ártemis escolherá um relacionamento afetivo no qual encontre companhia para seus esportes radicais, parcerias em mochilões ao redor do mundo, e apenas dividirá sua vida de forma satisfatória com alguém que lhe dê espaço, liberdade e chance de ela exercer sua independência.

Vivências com permacultura, o cultivo de uma horta em casa, trabalho voluntário com animais abandonados, rituais xamânicos que coloquem a mulher-Ártemis em contato com sua natureza instintiva, são indicações terapêuticas úteis para equilibrar o cotidiano vivido em uma metrópole.

Estátua de Ártemis

Deusa Afrodite

Palavras que evocam Afrodite: amor, beleza, paixão, sexualidade, corpo, artes…

A mais pura manifestação do amor, Afrodite é a deusa das sensações, do romance e a exaltação de atributos reconhecidos como legitimamente femininos. Uma mulher que tem mais afinidade com a energia desse arquétipo tenderá a ser sensual (mesmo sem querer) e até seu corpo poderá ser mais arrendondado (seios fartos, quadris largos, pernas grossas), ao contrário da mulher-Ártemis, que tende a ser mais atlética e com formas retas, objetivas.

Extrovertida, engraçada, ela lidará com a vida de forma leve (em contraposição à seriedade de uma Atena envolvida em um projeto profissional, por exemplo). Mas essa leveza pode se perder quando o assunto é a avalanche emocional dos romances nos quais se vê envolvida. Tudo será vivido com intensidade, drama e paixão. A mulher-Afrodite é visceral em seus relacionamentos, mas a mesma rapidez com que se apaixona e se entrega para um romance é a mesma com que sofrerá seu término e estará pronta para engatar em uma nova aventura amorosa.

Aos trinta anos ela já terá um histórico consideravelmente grande de namorados(as) e poderá relatar cada um desses relacionamentos de uma forma que te fará pensar: “ah, esse foi o grande amor de sua vida” – mas logo em seguida esse grande amor é superado por outro romance.

Ela não age assim por maldade de forma alguma, pois será leal a cada pessoa com a qual se relacionar, não por uma fidelidade formal e moral, mas com a inteireza de seu coração. A única coisa que ela não pode prometer é que essa lealdade será eterna, pois ela não será propensa a criar raízes e um matrimônio convencional não será a opção mais atraente.

A sexualidade da mulher-Afrodite será leve, intensa, sem censuras. Tendo um corpo fora ou dentro dos padrões culturais, ela sempre conseguirá explorar sua beleza de uma forma que chamará a atenção de outras pessoas – pois ela saberá, de forma consciente ou não, que a mulher mais sensual é aquela que se sente confortável e senhora de seu próprio corpo.

A chaga mais profunda da mulher-Afrodite diz respeito a todas nós (e também aos homens): a imposição social de sermos lineares e representarmos apenas um arquétipo. Por exemplo: uma mulher sensual não pode ser reconhecida por sua inteligência; um homem forte não é sensível; uma mulher independente não pode ser frágil; uma excelente mãe não pode se dedicar a sua vida profissional…

Todo ser humano é múltiplo e essas máscaras sociais, na maior parte das vezes, são vistas como definições de nossa personalidade, o que é extremamente limitador. O que estamos estudando aqui sobre os arquétipos das deusas é para expandir e enriquecer nosso processo de autoconhecimento, mas não devemos nos limitar a essas definições e nem tomá-las como totalizantes do funcionamento psíquico de ninguém. Então, quando uma mulher tem traços muito fortes de Afrodite, poderá ver-se encurralada por esses estigmas sociais e incompreendida em suas outras faces.

“A maneira de ser de Afrodite, pela sua própria natureza, não pode senão ocupar um lugar ambíguo e impotente no limiar do mundo patriarcal, onde o máximo que lhe é permitido é ser uma fonte de prazer cheio de culpa para os patriarcas. Os patriarcas são coletivamente, e não individualmente, culpados, por certo, mas são culpados mesmo assim, pois o sistema que herdaram tem desapossado e subjugado as mulheres há vários milênios.” (p. 124)

“A ordem patriarcal não permitiu que Deméter e Afrodite se misturassem”. (p. 124)

Quadro de Adolphe Bouguerau, pintado em 1879, retratando o nascimento de Vênus (como Afrodite era chamada pelos romanos)

No próximo texto você conhecerá as deusas Hera, Perséfone e Deméter. E, por fim, na terceira parte dessa série de autoconhecimento feminino você poderá fazer um teste de personalidade elaborado pelos autores do livro, cujo resultado pode ajudar muito nesse processo de conhecer como esses arquétipos te influenciam. Até breve! ^.^

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.